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quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Last Will

Ontem comprei uma casa só para dar uma mega festa para o pessoal do colégio. Também convidei o pessoal da faculdade, que não vejo desde a formatura, há 10 anos. E do trabalho. E, lógico, a galera do futebol, do barzinho, do pagode e da praia. E olha que nem moro no litoral! De noite bateu uma saudade do meu cão, por isso reservei, no restaurante mais badalado, dois lugares, mas não fui porque lembrei que tinha combinado de ir à ópera com meu cavalo. Sabe como é, todos merecem um pouco de cultura na vida. E enquanto a festa na casa rolava noite a fora, contratei dois chefs famosos e fomos dar um passeio ao luar, regado à Trufa Alba Branca e Melancia Negra e Tremoços Lusitanos. E sabe quanto custou? Nem eu! Quando se tem nada, parece fácil gastar muito, mas não é. Ainda tenho um longo caminho até a falência e, antes que meus primos cheguem à falência primeiro, venha logo, pois Last Will Tá na Mesa! 



Last Will, lançado em 2011 por Vladimir Suchý, para dois a cinco jogadores e com duração média de 60 minutos, tem um tema bem incomum. Vence o primeiro que gastar todo seu dinheiro. Simples, não?

- Um jogo que vence quem perde mais dinheiro? Que idiotice! 

Ao contrário, pequeno mequetrefe. Parece um contrassenso, mas é assim que o jogo funciona. Ao longo de sete rodadas, aquele que ficar sem nenhum tostão no bolso ganha. Mas é um pouco mais complicado do que parece. Há uma pequena história no jogo, onde o tio dos jogadores, dono de uma fortuna incalculável, morreu e deixou tudo para os sobrinhos (Nota da Sra. Slovic: Dai vem o nome, Última Vontade ou Testamento, em inglês) , só que em vez de dividir, o velho excêntrico, deu uma pequena parte para cada um e sacramentou que o primeiro a gastar tudo que ganhou ficaria com o resto. Tudo isso ambientado entre o fim do século XIX e início do sec. XX (Nota do Sr. Slovic: Período conhecido como Belle Époque, com todos seus nobres gentlemen, belas donzelas, e toda etiqueta europeia. Tenha isso em mente quando vir as cartas).

Last Will é um jogo de cartas, as quais representam várias coisas, desde mansões luxuosas e grandes propriedades rurais, a sofisticados bailes e antigos “amigos” muito queridos. Há três tipos de cartas: as de borda branca, que são de uso único. Normalmente uma ação, como dar um baile ou dar um grande baile. As cartas pretas são de uso permanente e representam imóveis, funcionários, carruagens (Nota da Sra. Slovic: Sim, lembre-se que estamos na Belle Époque), “amigos de longa data” (Nota do Sr. Slovic: Você achou mesmo que tanto dinheiro não atrairia novas e velhas amizades) ou coisas mais inusitadas como uma reserva vitalícia no seu restaurante favorito. E as de borda azul, que são Companheiros, como seu fiel Cão, ou seu notável Cavalo Puro Sangue e até mesmo renomados Chefs de Cozinha e aquela bela Senhorita (Nota do Sra. Slovic: Ou Senhoritos, também!).

Cada um dos sete turnos é dividido em três fases: Planejamento, Execução e Ação. No Planejamento, cada jogador escolhe, conforme a ordem do turno, uma posição no Tabuleiro Central. Essa posição determina quantas cartas fechadas serão compradas, quantos trabalhadores (Nota do Sr. Slovic: Chamados no jogo de Garotos de Recados) estarão disponíveis no turno e o número de ações nesse turno, além de quem irá executar as Ações primeiro.

Na fase de Execução, o jogador tem que alocar seus Garotos de Recado (que podem ser dois ou somente um), nos espaços disponíveis no Tabuleiro Central para comprar cartas abertas, manipular o mercado imobiliário (Nota do Sr. Slovic: Compre na alta, venda na baixa). Conseguir mais espaços no tabuleiro individual ou pagar $2 e mandar um de seus garotos a ópera (Nota da Sra. Slovic: É de bom tom dar um pouco de cultura ao menos favorecidos).

Já a ultima fase ocorre no Tabuleiro Individual, onde são baixadas as cartas de borda preta. No início há espaço para cinco cartas, mas usando os Garotos de Recado na fase anterior, pode-se aumentar esse número. Algumas cartas não requerem o gasto de uma Ação para serem ativadas outras sim, como o caso dos Imóveis. Só é possível ativar a carta uma vez por turno. Baixar uma carta também é uma ação, por isso programe-se direito. Se uma carta de imóvel não é usada, ocorre uma depreciação da propriedade, fazendo que seu valor caia. É uma boa tática deixar suas casas abandonadas.

- Esse negócio de falir é do Banco Imobiliário. É só baixar cartas e jogar dinheiro fora.

Nem tanto, caro patife. Há uma grande sinergia das cartas. Combos e mais combos podem, e devem, ser montados para gastar o máximo de dinheiro possível. Às vezes é difícil gastar tanto, principalmente porque estamos acostumados a jogos em que devemos maximizar os ganhos e não as perdas. Ir ao teatro com seu cavalo, comprar uma fazenda para criar cachorros, dar uma festa de arromba e destruir a casa, hospedar em sua mansão aquele colega da escola que só te importunava, mas que se tornou seu fiel companheiro agora (Nota do Sr. Slovic: Tente explicar o porquê de usar as cartas, principalmente se for um combo. Não faz parte das regras, mas deixa o jogo mais imersivo e divertido). E já há uma expansão, Getting Sacked, que além de tudo você deve perder seu emprego, entre outras coisas.


No geral, Last Will é um jogo muito, mas muito bom. É um dos raros Euros que tem o tema tão bem trabalhado e amarrado com todas as mecânicas. As regras são simples, mas entender as cartas para criar as melhores combinações não é fácil. Apesar de não ter muita interação entre os jogadores, é divertido, principalmente se todos entrarem no clima e explicarem as ações absurdas que estão fazendo para gastar a grana. Quem assistia Sessão da Tarde na década de 1980 pode se lembrar de Brewster's Millions, ou Chuva de Milhões, com Richard Pryor, que conta uma história exatamente assim. Por fim, não se esqueça de que o jogo termina quando alguém fica sem nenhum dinheiro no bolso, inclusive os imóveis, por isso não se esqueça de vendê-los antes da última rodada. Falando nisso, alguém quer comprar uma casa, com um iate no telhado, fedendo a cavalo?


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